
W&W Circle · Condicionamento
O VO2 do relógio errou por 6 pontos, e o que prediz risco é a direção dele
Num estudo de 2026 com 11.530 pessoas medidas duas vezes, cada 1 mL/kg/min de ganho por ano apareceu com risco 34% menor de morte cardiovascular, independente do ponto de partida. O número cru do pulso, contra o laboratório, saiu 6 pontos abaixo.
Pergunte a um corredor amador qual número ele acompanha e, cada vez mais, a resposta é o VO2 máximo do relógio. Faz sentido: o VO2 máximo é a quantidade de oxigênio que o corpo usa no esforço máximo, e é um dos preditores de risco de morte mais fortes que a medicina preventiva tem. O problema é que a conversa virou sobre o valor absoluto, aquele 48 ou 52 que o aplicativo mostra, e é aí que o número é mais frágil.
Dois trabalhos recentes mudam o jeito de olhar isso. Um de 2026, no European Journal of Preventive Cardiology, foi atrás de outra pergunta: não quanto você tem, mas para onde o seu número está indo. Outro, de 2025, colocou o relógio contra o laboratório e mediu o erro.
A conclusão prática junta os dois. A direção do seu condicionamento carrega mais informação do que o ponto onde ele está, e a direção é, por sorte, o que o relógio tem mais chance de acertar, ainda que ninguém tenha provado isso ao longo de anos.
Um ponto por ano, independente de onde você começou
O estudo de López-Bueno e colegas usou o UK Biobank e tem desenho incomum: 11.530 adultos de 40 a 73 anos fizeram o teste de condicionamento duas vezes, separadas por cerca de quatro anos, e foram acompanhados por um tempo mediano de 14 anos. Nesse período apareceram 921 casos novos de doença cardiovascular e 119 mortes cardiovasculares.
Para cada 1 mL/kg/min de melhora por ano, o risco de desenvolver doença cardiovascular veio com razão de risco de 0,85 (intervalo de confiança de 95% de 0,75 a 0,96), ou seja, cerca de 15% menor. Para morte cardiovascular, a razão foi de 0,66 (0,51 a 0,87), cerca de 34% menor. A relação foi linear, e os autores escrevem que uma melhora anual de apenas 1 mL/kg/min pode bastar para reduzir o risco, independente do condicionamento inicial.
Isso interessa a quem acha que perdeu o bonde: quem estava mal e subiu aparece no mesmo lado da curva de quem já estava bem e subiu. Cair ao longo dos anos apareceu associado a mais risco.
Para dar escala, um trabalho de 2026 na Biomedical and Environmental Sciences cruzou duas coortes nacionais. No UK Biobank, com 71.782 pessoas, mais capacidade estimada veio com razão de risco de 0,78 (0,75 a 0,82) para morte por qualquer causa. Entre 40 e 49 anos, a diferença de expectativa de vida entre os extremos de condicionamento foi de 4,44 anos nas mulheres e 4,75 anos nos homens.
O número cru do pulso erra, e erra para baixo
A parte que o marketing não conta. Em 2025, na PLOS ONE, Lambe e colegas pegaram 28 adultos, idade média de 31,9 anos, metade mulheres, a maioria com condicionamento bom ou superior. Cada um usou um Apple Watch por 5 a 10 dias para gerar a estimativa, e depois fez um teste cardiopulmonar com análise de gases em esteira.
O relógio subestimou o VO2 máximo em média 6,07 mL/kg/min (intervalo de confiança de 95% de 3,77 a 8,38). O erro percentual absoluto médio ficou em 13,31%. E o intervalo de concordância, que é a faixa onde cabem as diferenças individuais, foi de 6,11 abaixo a 18,26 acima. Numa pessoa específica, a diferença pode passar de 18 pontos.
Uma revisão sistemática de 2025 na Frontiers in Sports and Active Living, com 13 estudos e 273 participantes, põe isso em perspectiva por marca. Os Garmin com algoritmo Firstbeat foram os mais testados e ficaram com erro médio de 5% a 10% em corredores recreativos e treinados, e abaixo de 5% em jogadores jovens de futebol. O Apple Watch Series 7 apareceu com 15,78% num dos estudos incluídos, na mesma ordem do achado da PLOS ONE. Os autores consideram as estimativas válidas em adultos saudáveis e atletas recreativos, e questionáveis em atletas de resistência de elite, cujos valores altos fogem da faixa em que o algoritmo foi calibrado.
Um detalhe dessa revisão é o mais acionável de tudo: num dos estudos incluídos, fazer duas corridas de teste em vez de uma derrubou o erro médio de 5,58% para 1,06%. A estimativa melhora muito quando você dá mais de um dado limpo ao algoritmo.
O que esses estudos não permitem concluir
O primeiro limite é de método, e vale declarar: os dois estudos de desfecho não mediram VO2 máximo com análise de gases, nem com relógio. Mediram capacidade estimada por teste submáximo em bicicleta ergométrica padronizada, no UK Biobank, e em esteira no NHANES. É estimativa de laboratório, sempre com o mesmo protocolo. Não é o seu pulso. Levar o achado para o relógio é extrapolação minha, não resultado do estudo.
O segundo é desacordo dentro do mesmo artigo. Na Biomedical and Environmental Sciences, a coorte americana do NHANES, com 3.391 pessoas, não mostrou associação significativa com mortalidade geral. Os autores atribuem a diferença aos protocolos distintos entre as coortes e à amostra muito menor. O achado não é uniforme entre bases.
O terceiro é o buraco onde esta conversa pisa. A revisão de 2025 diz, com todas as letras, que faltam estudos longitudinais acompanhando a precisão desses aparelhos por meses ou anos. Seguir a tendência do número do relógio é aposta razoável, não prática validada. Se o algoritmo mudar numa atualização, a sua série histórica muda junto e ninguém te avisa.
Por fim, as duas coortes são observacionais. Melhora de condicionamento não é causa provada de menos risco: quem melhorou provavelmente mudou outras coisas na mesma época.
Na prática
- Pare de comparar o seu valor absoluto com tabela de internet ou com o número de outra marca. Compare o seu com o seu, no mesmo aparelho.
- Mire em subir cerca de 1 ponto por ano, não em bater uma meta de revista. Foi essa a magnitude que apareceu nos dados.
- Dê ao algoritmo mais de uma corrida de referência por período, ao ar livre, em terreno plano, com esforço sustentado e cinta de frequência cardíaca no peito. Uma medida só é a pior medida, e os dados mais precisos da revisão vieram de relógio com cinta.
- Anote a data de cada atualização grande do sistema do relógio. Degrau súbito no gráfico, sem mudança no treino, provavelmente é o algoritmo, não você.
- Trate queda sustentada por vários meses, com o mesmo treino, como sinal para investigar, não para treinar mais.
- Se quiser o número real uma vez na vida, faça um teste cardiopulmonar com análise de gases. Ele é a âncora para saber o quanto, e para que lado, o seu relógio erra.
Antes de perseguir número, procure um médico se tiver dor ou aperto no peito no esforço, falta de ar desproporcional ao ritmo de sempre, tontura ou desmaio durante ou logo depois do treino, ou batimento irregular em repouso. Vale também se passou dos 45 anos e vai sair do sedentarismo direto para treino intenso.
O que eu vejo nos dados de quem acompanho é que o valor absoluto gera ansiedade e a tendência gera comportamento. Na minha visão, é a troca certa. O ponto de partida você não escolheu. A direção você escolhe toda semana.
Fontes
- López-Bueno R, Andersen LL, Polo-López A, Joensuu L, Suso-Martí L, Núñez-Cortés R, Calatayud J. Longitudinal changes of cardiorespiratory fitness are associated with cardiovascular disease and mortality: evidence from the UK Biobank. European Journal of Preventive Cardiology, 2026.
- Guo T, Lu H, Cao M, Wang H, Wang J, Wang Y. Association between Cardiorespiratory Fitness and All-cause Mortality and Life Expectancy: Two Nationwide Cohort Studies from the United Kingdom and the United States. Biomedical and Environmental Sciences, 2026.
- Lambe O, O'Grady C, Baldwin M, Doherty C. Investigating the accuracy of Apple Watch VO2 max measurements: a validation study. PLOS ONE, 2025;e0323741.
- Železnik Mežan L. Accuracy of wearables for determining the maximal oxygen uptake and lactate threshold: a qualitative systematic review. Frontiers in Sports and Active Living, 2025.
Este texto é orientação de hábito, feita a partir de estudos publicados. Ele não substitui avaliação médica, e não serve para diagnosticar nem para mudar tratamento ou medicação. Se algo aqui conversa com um sintoma seu, leve a pergunta a quem te acompanha.
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