
W&W Circle · Composição corporal
Por que treino e não ganho massa: não respondedor é raro, erro de medida não
Em 38 homens de 72 anos que treinaram pesado por 16 semanas, 82% responderam bem quando se olhou mais de um desfecho, e a coxa cresceu 3% contra 19% de força. O que trava a massa de quem trabalha muito raramente é genética.
Quem treina com constância e não vê o corpo mudar chega quase sempre na mesma conclusão: "eu devo ser não respondedor". A ideia é confortável porque fecha o assunto: se o problema é genética, não há o que fazer.
Só que a literatura que criou a figura do não respondedor é mais frágil que a fama dela. Uma revisão sistemática de 2024 na Sports Medicine and Health Science reuniu 13 estudos e 921 pessoas para contar quantos participantes não respondiam. O resultado foi um intervalo, não um número: de 0% a 84% de não respondedores para tamanho de músculo, de 0% a 44% para força e de 0% a 42% para desempenho funcional.
Essa variação não vem das pessoas. Vem do critério: os autores encontraram pelo menos seis formas diferentes de decidir quem respondeu, e só 2 dos 13 estudos tinham baixo risco de viés. O 0% a 84% descreve a inconsistência da literatura, não a biologia de quem treina.
Por que treino e não ganho massa
O primeiro motivo é que o crescimento real é pequeno e o instrumento que mede tem erro.
Um artigo metodológico de 2025 na Frontiers in Sports and Active Living reanalisou um estudo em que a pessoa treinava um braço e deixava o outro parado por 12 semanas. O braço treinado ganhou 18,9% de massa, com desvio padrão de 9,7%. O braço parado variou 1,4%, com desvio padrão de 7,2%, e ali não houve treino nenhum: aquele 7,2% é oscilação biológica somada ao erro da medida. Descontando essa parte, a variação verdadeira entre as pessoas cai para 6,5%, cerca de um terço menos.
Traduzindo: boa parte do "todo mundo cresce e eu não" é o aparelho e o próprio corpo flutuando, não trainabilidade.
Quando se olha mais de um desfecho, o não respondedor quase desaparece
O teste mais direto disso saiu em janeiro de 2026 na PLOS One. Pesquisadores dinamarqueses acompanharam 58 homens saudáveis de 72 anos, em média: 38 fizeram 16 semanas de musculação pesada, três sessões por semana; 20 ficaram sedentários como controle.
Os ganhos médios de quem treinou, ao fim de quatro meses:
- área de secção transversa do quadríceps: 3%, desvio padrão de 4%
- área das fibras do tipo II, as que geram força: 14%, desvio padrão de 25%
- contração voluntária máxima: 19%, desvio padrão de 14%
- taxa de desenvolvimento de força, a velocidade com que a força aparece: 58%, desvio padrão de 80%
Quatro meses de treino pesado e supervisionado moveram a coxa 3%. Isso não aparece no espelho nem na balança. A fibra que importa cresceu 14% e a força subiu 19% no mesmo período.
Quando os autores classificaram cada participante olhando o conjunto dos desfechos, e não um só, 39% ficaram na faixa "excelente" e 42% na faixa "robusta". Treze por cento tiveram resposta trivial e 5% resposta pobre. A conclusão dos autores é que não respondedores verdadeiros parecem raros entre homens idosos saudáveis.
Quem julga o próprio treino por um número só, o da balança ou o da bioimpedância, está usando o critério que fabrica não respondedores.
O que de fato trava a massa de quem trabalha muito
Uma meta-análise de 2022 no Scandinavian Journal of Medicine and Science in Sports juntou ensaios randomizados de musculação feita em déficit calórico por três semanas ou mais. Comparado com quem treinava sem déficit, o ganho de massa magra ficou prejudicado (tamanho de efeito de 0,57 negativo, p = 0,02) e o de força ficou parecido (0,31 negativo, p = 0,28). A meta-regressão mostrou que um déficit em torno de 500 kcal por dia já impedia qualquer ganho de massa magra.
Esse é o padrão de quem treina e reclama: a força sobe, a massa não. Não é falta de resposta ao treino, é orçamento de energia.
O segundo freio é volume. A nova posição oficial do American College of Sports Medicine, publicada em 2026 na Medicine and Science in Sports and Exercise, sintetizou 137 revisões sistemáticas e mais de 30 mil participantes. Para tamanho de músculo, só dois fatores apareceram com relação de dose: volume semanal, a partir de 10 séries por grupo muscular por semana, e sobrecarga na fase excêntrica.
A mesma posição lista o que não mudou o ganho de tamanho de forma consistente: treinar até a falha, restrição de fluxo sanguíneo, periodização, cadência de 0,5 segundo contra 8 segundos, carga de 30% a 100% de uma repetição máxima e frequência quando o volume total era igual. Basta estímulo suficiente, algo perto de duas a três repetições de reserva.
E o suplemento? Uma meta-análise de 2018 no British Journal of Sports Medicine, com 49 estudos e 1.863 pessoas, mediu o efeito de suplementar proteína durante musculação prolongada: 0,30 kg de massa livre de gordura no total, com intervalo de confiança de 95% entre 0,09 kg e 0,52 kg. Acima de 1,62 g por quilo por dia no total da dieta, suplementar não acrescentou nada. Trezentos gramas é menos do que a balança distingue de um dia para o outro.
Onde a conta não fecha
O estudo dinamarquês foi feito com homens de 72 anos, supervisionados. As porcentagens dele não se transferem para um executivo de 45 que treina sozinho às seis da manhã. O que se transfere é a lógica de classificação.
Os mesmos autores encontraram dispersão de resposta individual acima do erro típico do aparelho para força e para área do quadríceps. Ou seja: diferenças individuais verdadeiras existem. O que a evidência sugere é que resposta zero é rara, não que todos respondem igual.
O artigo das Frontiers é uma proposta de método, não um ensaio. E a posição da ACSM é uma revisão de revisões: herda os defeitos das 137 que resumiu, e os autores registram que a carga total semanal, a medida mais completa de dose, quase nunca foi considerada.
Na prática
- Troque o espelho pela planilha. Anote carga e repetições. Se a força de oito semanas atrás subiu, o treino está funcionando mesmo com a foto idêntica.
- Conte séries por grupo muscular por semana, não horas de academia. Foi o volume que apareceu com relação de dose nas 137 revisões.
- Decida uma coisa por vez. Em déficit perto de 500 kcal por dia, a expectativa honesta é preservar massa.
- Garanta o básico antes do caro: comida suficiente no dia e sono. O pote de proteína valeu 0,30 kg na média de 49 estudos.
- Dê prazo de 12 a 16 semanas antes de concluir qualquer coisa, e meça no mesmo aparelho e no mesmo horário.
- Pare de caçar técnica. Falha, cadência, periodização e restrição de fluxo não mudaram o ganho de tamanho.
Vale procurar um médico, e não um ajuste de treino, quando o peso cai sem intenção, quando a força medida cai por oito semanas ou mais apesar de treino mantido, ou quando aparece cansaço desproporcional ao esforço.
Na minha visão, o que mais engana executivo que treina é o tempo. Quatro meses de trabalho pesado valem 3% de coxa e 19% de força, e só um desses números aparece na roupa. Quem decide continuar pelo que o espelho mostra escolheu o pior sensor disponível.
Fontes
- Moda TEDR, Viana RB, Dias RKN, Penna EM, Coswig VS. Responsiveness of functional performance and muscle strength, power, and size to resistance training: A systematic review. Sports Medicine and Health Science, 2024;6(2):111-122.
- Chaves TS, da Silva DG, Lixandrao ME, Libardi CA. Within-individual design for assessing true individual responses in resistance training-induced muscle hypertrophy. Frontiers in Sports and Active Living, 2025;7:1517190.
- Soendenbroe C, Andersen JL, Heisterberg MF, Kjaer M, Mackey AL. Heavy resistance exercise training in older men: A responder and inter-individual variability analysis. PLOS One, 2026;21(1):e0338775.
- Murphy C, Koehler K. Energy deficiency impairs resistance training gains in lean mass but not strength: A meta-analysis and meta-regression. Scandinavian Journal of Medicine and Science in Sports, 2022;32(1):125-137.
- Currier BS, D'Souza AC, Fiatarone Singh MA, et al. American College of Sports Medicine Position Stand. Resistance Training Prescription for Muscle Function, Hypertrophy, and Physical Performance in Healthy Adults: An Overview of Reviews. Medicine and Science in Sports and Exercise, 2026;58(4):851-872.
- Morton RW, Murphy KT, McKellar SR, et al. A systematic review, meta-analysis and meta-regression of the effect of protein supplementation on resistance training-induced gains in muscle mass and strength in healthy adults. British Journal of Sports Medicine, 2018;52(6):376-384.
Este texto é orientação de hábito, feita a partir de estudos publicados. Ele não substitui avaliação médica, e não serve para diagnosticar nem para mudar tratamento ou medicação. Se algo aqui conversa com um sintoma seu, leve a pergunta a quem te acompanha.
6 estudos
Ver as fontes