
W&W Circle · Composição corporal
O que a creatina entrega em uma semana é água, não músculo
Um ensaio australiano mediu sete dias de creatina sem treino nenhum e viu meio quilo a mais de massa magra no DXA. Depois de doze semanas treinando, o grupo com creatina não ganhou mais músculo que o grupo sem.
A creatina tem a melhor reputação do mercado de suplementos: é barata, é a mais estudada do esporte e dá retorno visível rápido. A balança sobe, o exame de composição corporal acompanha, e a conta parece fechada já na primeira semana.
O problema é o que esse número está medindo. Três análises publicadas entre 2025 e 2026 apontam para o mesmo incômodo: o ganho rápido de massa magra aparece antes de qualquer treino, e o efeito da creatina sobre o músculo construído ao longo de meses é bem menos firme do que a reputação sugere.
Nada aqui diz que creatina não serve. Diz que ela não serve pelo motivo que você imagina, e que a balança é o pior juiz possível.
Sete dias, nenhum treino, meio quilo a mais
Um ensaio publicado na revista Nutrients em 2025, conduzido por pesquisadores australianos com 63 pessoas (34 mulheres e 29 homens, média de 31 anos), fez algo que a maioria dos estudos não faz: separou o efeito imediato da creatina do efeito do treino.
Antes de qualquer sessão de musculação, o grupo suplementado passou sete dias tomando 5 gramas de creatina por dia, sem treinar. Ao fim da semana, a massa magra medida por DXA (a densitometria, padrão clínico de composição corporal) tinha subido 0,51 kg no grupo suplementado, contra zero no controle (p = 0,03). Entre as mulheres, 0,55 kg contra 0,03 kg a menos no controle (p = 0,04). Entre os homens, nenhuma diferença (p = 0,82).
Sete dias não constroem meio quilo de músculo em ninguém. A síntese de proteína muscular não trabalha nessa velocidade.
Doze semanas depois, o placar empata
Terminados os sete dias, os dois grupos entraram em doze semanas de musculação: três sessões de corpo inteiro por semana, cinco exercícios por sessão, quatro séries cada, supervisionadas por fisiologistas do exercício.
O resultado: o grupo com creatina ganhou 2,24 kg de massa magra e o grupo sem creatina ganhou 2,11 kg. A diferença não foi estatisticamente significativa (p = 0,71). Os autores concluíram que a creatina não teve efeito aditivo sobre a massa magra quando combinada ao treino, e que a vantagem na conta total vinha da primeira semana.
Os limites do ensaio precisam ser ditos. Foi cego de um lado só, e o grupo controle não recebeu placebo, recebeu nada, o que tende a favorecer o grupo suplementado. Os pesquisadores não mediram estoque de creatina no músculo, não padronizaram hidratação nem conteúdo estomacal antes do DXA, e não mediram força nenhuma. Esse estudo não diz nada sobre creatina e força.
O desacordo entre os pesquisadores é real
Se o assunto parasse aí, seria simples. Não para.
No mesmo ano, uma revisão sistemática no Journal of the International Society of Sports Nutrition juntou 61 ensaios controlados e 1.457 participantes e encontrou ganho de massa livre de gordura de 1,39 kg com creatina (IC 95%: 1,07 a 1,70; p < 0,001), sem mudança na massa de gordura. Vale registrar: o pesquisador Darren Candow assina tanto essa revisão quanto o ensaio australiano que não achou efeito. É a mesma literatura lida por ângulos diferentes.
A evidência mais recente ajuda a arbitrar. Em agosto de 2026, uma meta-análise de três níveis na Frontiers in Nutrition reuniu 11 ensaios randomizados em adultos mais velhos (idade média de 67 anos), comparando treino de força com creatina contra treino de força sozinho. Para força, o ganho foi significativo (g = 0,31; IC 95%: 0,18 a 0,45), com certeza da evidência classificada como moderada. Para massa muscular, g = 0,35, com intervalo de confiança indo de 0,09 negativo a 0,78, atravessando o zero, e certeza baixa. Função física também não alcançou significância estatística (p = 0,086).
Outra meta-análise de 2025, com 8 ensaios e 482 participantes acima de 50 anos, achou efeito pequeno e significativo sobre massa magra (SMD 0,27; IC 95%: 0,02 a 0,53). Mas trouxe um achado que quase ninguém comenta: nos ensaios de 52 semanas ou mais, o efeito sumiu (SMD 0,08; IC 95%: 0,17 negativo a 0,34). O benefício aparecia sobretudo nos estudos curtos.
O desfecho que sobrevive à revisão mais rigorosa é força. Massa muscular é o desfecho fraco, com certeza de evidência baixa nas duas análises mais recentes.
Por que o exame não resolve a discussão
A explicação mecânica é conhecida e inconveniente para o marketing. A creatina entra na célula muscular por um transportador de sódio e puxa água junto. Tanto o DXA quanto a bioimpedância contam água intracelular como massa magra: não conseguem separar uma da outra.
Isso já foi medido de forma direta. Um ensaio duplo-cego publicado no Journal of the International Society of Sports Nutrition em 2023, com bailarinas universitárias ao longo de 42 dias, viu a água corporal total subir de 32,2 kg para 32,7 kg (p = 0,024) e a massa magra por DXA subir de 39,8 kg para 41,5 kg (p = 0,020) no grupo com creatina, enquanto o placebo não mudou em nenhuma das duas medidas. Os autores atribuíram a mudança no DXA à água.
Esse ensaio é minúsculo, 13 participantes, e sozinho não prova nada. Só confirma o mecanismo que o estudo australiano tornou visível. E a diretriz da International Society of Sports Nutrition, favorável à creatina, já registrava retenção de líquido de cerca de 0,5 a 1,0 litro na fase inicial, proporcional ao ganho agudo de peso. Nunca foi segredo. Só virou propaganda.
Na prática
- Ignore a balança e o exame de composição corporal nas primeiras duas a quatro semanas. Esse número não é músculo e engana nos dois sentidos: para cima no início, para baixo se você parar.
- Julgue pelo desfecho com evidência mais forte: carga e repetições. Anote o que levantou no supino, no agachamento e na remada. Se em oito semanas a carga não subiu, a creatina não está entregando o que tem de melhor.
- Compare DXA sempre nas mesmas condições: mesmo horário, mesmo jejum, mesma ingestão de líquido. Foi isso que o ensaio australiano não padronizou, e os autores apontaram a falha.
- Não troque treino por suplemento. Nos dois grupos, doze semanas de musculação renderam mais de 2 kg de massa magra. Esse foi o efeito grande. O resto foi decimal.
- Se você passou dos 60, a leitura muda: é nessa faixa que o ganho de força aparece com certeza moderada. Ainda assim, o efeito é modesto e depende de o treino existir.
Vale conversar com um médico antes de começar se você tem doença renal conhecida, creatinina alterada em exame recente ou usa medicação de eliminação renal. A diretriz da ISSN registra segurança em pessoas saudáveis e em várias populações clínicas, com uso de até 30 gramas por dia por cinco anos, mas esses dados vêm de gente com função renal preservada.
Na minha visão, o erro nunca foi tomar creatina. Foi eleger a balança como juiz. Ela responde rápido, responde todo dia e responde a pergunta errada.
A pergunta útil não é quantos quilos de massa magra apareceram no último exame. É se a carga subiu, se a série ficou mais fácil e se a pessoa treinou nas semanas em que não deu vontade. Nenhuma das três vem dentro de um pote.
Fontes
- Desai I, Pandit A, Smith-Ryan AE, Simar D, Candow DG, Kaakoush NO, Hagstrom AD. The Effect of Creatine Supplementation on Lean Body Mass with and Without Resistance Training. Nutrients, 2025;17(6):1081.
- Ashtary-Larky D, Mohammadi A, Hajizadeh Maleki B, Mousavi SM, Forbes SC, Candow DG, Antonio J. Creatine supplementation and resistance training: a comparison between novice and experienced lifters, a systematic review and dose-response meta-analysis. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2025.
- Yao L, Yang D, Gao J. Effects of resistance training combined with creatine supplementation on muscle strength, physical function, and muscle mass in older adults: a systematic review and three-level meta-analysis. Frontiers in Nutrition, agosto de 2026.
- Liu S, Huang N, Wu W, OuYang X, Luo Y, Zhong Y, Wang M, Xiao L. The impact of creatine supplementation associated with resistance training on muscular strength and lean tissue mass in the aged: a systematic review and meta-analysis. European Review of Aging and Physical Activity, 2025.
- Brooks CD, et al. Creatine monohydrate supplementation changes total body water and DXA lean mass estimates in female collegiate dancers. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2023;20(1).
- Kreider RB, et al. International Society of Sports Nutrition position stand: safety and efficacy of creatine supplementation in exercise, sport, and medicine. Journal of the International Society of Sports Nutrition, 2017;14:18.
Este texto é orientação de hábito, feita a partir de estudos publicados. Ele não substitui avaliação médica, e não serve para diagnosticar nem para mudar tratamento ou medicação. Se algo aqui conversa com um sintoma seu, leve a pergunta a quem te acompanha.
6 estudos
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