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Nos dois cardápios as pessoas emagreceram, e a diferença coube em 1 ponto percentual

Um ensaio britânico colocou comida ultraprocessada e comida minimamente processada dentro da mesma diretriz oficial. Os dois grupos perderam peso, e a separação entre eles foi menor do que a manchete sugeriu.

Kauã Ramos · 17 de setembro de 2026 · 6 min de leitura

Quase todo executivo que começa a cuidar dos próprios dados chega com uma regra pronta: ultraprocessado é o inimigo. A compra vira uma caçada a rótulos, o pacote com sete ingredientes impronunciáveis é descartado e fica a sensação de que o problema foi resolvido ainda no mercado.

A crença tem base real. Estudos populacionais grandes associam consumo alto de ultraprocessado a mais obesidade e mais doença cardiovascular. O que mudou nos últimos doze meses foi outra coisa: os ensaios clínicos que deveriam confirmar essa história passaram a ser lidos com mais cuidado, e o que eles sustentam é mais estreito do que a manchete.

Vale separar duas perguntas que costumam virar uma só. Quem come muito ultraprocessado tende a ir pior? Sim. É o processamento em si, o fato de a comida ter sido desmontada e reconstruída na indústria, que causa o estrago? Essa segunda pergunta não está resolvida, e é nela que os dados novos batem.

O ensaio que colocou os dois lados dentro da mesma diretriz

Em agosto de 2025 a revista Nature Medicine publicou um ensaio conduzido pelo University College London com 55 adultos ingleses, 50 deles na análise principal. Todos tinham índice de massa corporal entre 25 e 40 e já tiravam pelo menos metade das calorias do dia de ultraprocessados. A idade média era 43 anos e 90,9% eram mulheres.

Cada participante passou oito semanas comendo um cardápio montado só com comida minimamente processada e outras oito semanas com um cardápio ultraprocessado, com quatro semanas de intervalo entre eles. O detalhe que muda a leitura: os dois cardápios foram desenhados para cumprir a diretriz alimentar oficial britânica, o Eatwell Guide. Ninguém contou calorias, cada um comia o quanto quisesse.

Os dois grupos emagreceram. No cardápio minimamente processado a perda foi de 2,06% do peso; no ultraprocessado, 1,05%. A diferença entre os dois, 1,01 ponto percentual (intervalo de confiança de 95%: 0,14 a 1,87; p = 0,024), pendeu para a comida minimamente processada e veio junto com 0,98 kg a mais de perda de gordura e uma queda maior de triglicerídeos. Também houve melhora maior no controle sobre vontade de comer.

Em pressão arterial, glicemia de jejum e colesterol total os dois cardápios se comportaram igual. E um dado que quase não circulou: a adesão foi maior no cardápio ultraprocessado, 91,2% contra 84,5%.

Por que o mesmo estudo serve aos dois lados da discussão

Quando o ensaio saiu, o Science Media Centre britânico reuniu especialistas, e a leitura deles é menos redonda que a manchete.

Kevin McConway, professor emérito de estatística aplicada da Open University, apontou que a diferença se concentrou no primeiro período do estudo: entre quem fez o segundo trecho, a distância entre as duas dietas praticamente sumiu. Os próprios autores registram que não dá para descartar um efeito de arrasto de um período sobre o outro.

Alex Johnstone, do Rowett Institute, lembrou que a composição corporal foi medida por bioimpedância, que não é o método de referência. Tracy Parker, da British Heart Foundation, marcou o óbvio: o estudo é pequeno e quase só com mulheres, o que limita generalizar. E Gunter Kuhnle, professor de nutrição em Reading, foi mais longe: se os dois braços perderam peso, o resultado é difícil de conciliar com a ideia de que ultraprocessado, por si, engorda.

Nada disso anula o achado. Significa que ele é pequeno, veio de um cardápio só de cada tipo e de uma população específica. Não é uma lei.

O que aparece quando se olha o conjunto dos ensaios

Em 4 de junho de 2026 a revista Science publicou uma análise assinada por Faidon Magkos, Ciarán Forde e Eric Robinson que revisou cinco ensaios randomizados feitos nos Estados Unidos, Reino Unido, Dinamarca e Japão. A frase central deles é direta: os ensaios disponíveis dão apoio fraco à ideia de um efeito específico do ultraprocessamento sobre peso e saúde cardiometabólica que seja independente dos determinantes nutricionais já conhecidos. A recomendação que tiram disso é mirar comida pobre em nutrientes, densa em calorias e consumida rápido, qualquer que seja o grau de processamento.

No dia seguinte, o mesmo grupo publicou como preprint, ainda sem revisão por pares, uma revisão sistemática com dez ensaios. O número que interessa está numa análise de subgrupo: quando os alimentos ultraprocessados do estudo eram mais densos em calorias que os do outro braço, o efeito sobre a ingestão foi claro; quando a densidade calórica era parecida entre os dois lados, o efeito praticamente desapareceu. A velocidade de comer, essa sim, foi bem maior nos braços ultraprocessados.

Existe um contrapeso importante, e ele é antigo. Em 2019, Kevin Hall e colegas internaram 20 adultos no NIH por quatro semanas, duas em cada dieta, com os cardápios pareados em calorias oferecidas, densidade energética, macronutrientes, açúcar, sódio e fibra. Mesmo com tudo isso igualado, as pessoas comeram 508 kcal a mais por dia no cardápio ultraprocessado e ganharam 0,9 kg, contra 0,9 kg perdidos no não processado.

Ou seja: densidade calórica explica boa parte, mas provavelmente não tudo. Textura, maciez e velocidade de mastigação continuam em cima da mesa como candidatas. Ninguém demonstrou ainda qual delas carrega o peso.

Na prática

  • Compare densidade calórica, não grau de processamento. Entre dois produtos da mesma categoria, olhe as kcal por 100 g e fique com o menor. Esse é o único critério que apareceu de forma consistente nos ensaios.
  • Coma o que exige mastigar. Fruta inteira no lugar do suco, carne no lugar do patê, grão no lugar da pasta. Velocidade de comer foi a diferença mais robusta entre os braços dos estudos.
  • Use a diretriz como checklist da semana: fibra, fruta e verdura no volume recomendado, sódio sob controle. Nos dois braços do ensaio britânico foi isso que produziu perda de peso, não a origem do alimento.
  • Não descarte o ultraprocessado que resolve logística. Iogurte natural, leite, feijão de lata e congelado de vegetal continuam cumprindo a diretriz. A adesão do ensaio foi maior justamente no cardápio mais conveniente, e adesão é o que sobrevive a uma agenda cheia.
  • Meça o que responde. Peso semanal em jejum e circunferência da cintura mudam em semanas. Pressão, glicemia de jejum e colesterol total não separaram um cardápio do outro neste ensaio, então não use esses exames como placar entre eles.
  • Leve para um médico ou nutricionista se o seu exame mais recente trouxe triglicerídeos ou glicemia de jejum fora da faixa de referência do laboratório, se você usa medicação para pressão, diabetes ou colesterol, ou se o peso não cede depois de dois a três meses com o cardápio ajustado.

Na minha visão, a caçada ao rótulo é atraente porque é uma decisão só, tomada no corredor do mercado, e depois acaba. O que os dados pedem é mais chato: comida que ocupa volume, que obriga a mastigar e que você consegue repetir na terça-feira ruim.

O grau de processamento continua sendo um atalho razoável, porque quase tudo que é ultraprocessado também é denso em calorias e macio. Só não é o mecanismo. Quando o atalho e o mecanismo se separam, quem acompanha os próprios números ganha em seguir o mecanismo.

Fontes

  1. 01Dicken SJ, Dahm CC, Ibsen DB, et al. Ultraprocessed or minimally processed diets following healthy dietary guidelines on weight and cardiometabolic health: a randomized, crossover trial. Nature Medicine, 2025.
  2. 02Science Media Centre. Expert reaction to randomised crossover trial of ultra- vs minimally-processed foods that follow healthy diet guidelines, and weight loss, 2025.
  3. 03Magkos F, Forde CG, Robinson E. Ultraprocessed foods and obesity: Interpreting the evidence. Science, 4 de junho de 2026.
  4. 04Robinson E, Jones A, Evans R, et al. A systematic review and meta-analysis of randomised controlled trials examining the effect of ultra-processed food on energy intake and weight gain. medRxiv, 2026 (preprint, sem revisao por pares).
  5. 05Hall KD, Ayuketah A, Brychta R, et al. Ultra-Processed Diets Cause Excess Calorie Intake and Weight Gain. Cell Metabolism, 2019.

Este texto é orientação de hábito, feita a partir de estudos publicados. Ele não substitui avaliação médica, e não serve para diagnosticar nem para mudar tratamento ou medicação. Se algo aqui conversa com um sintoma seu, leve a pergunta a quem te acompanha.