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Nos 35 ensaios, só a dose alta em quem já tinha risco elevou a arritmia
A revisão mais ampla até agora, 35 ensaios e 114.592 pessoas, achou aumento de fibrilação atrial em um único grupo: dose acima de 1.500 mg por dia em quem já tinha risco cardiovascular alto. Nos outros três, nada. E um grupo independente discorda.
Por anos a cápsula de óleo de peixe foi tratada como um gesto sem risco. Se não ajudasse muito, pelo menos não atrapalharia. Em 2021 essa ideia virou do avesso. Uma revisão publicada na Circulation, do grupo de Baptiste Gencer com pesquisadores do Brigham and Women's Hospital e de Harvard, juntou sete ensaios clínicos, 81.210 pacientes, e encontrou mais fibrilação atrial em quem recebeu ômega-3 marinho: razão de risco 1,25 (intervalo de confiança de 95%: 1,07 a 1,46). Fibrilação atrial é um ritmo cardíaco irregular que nasce nas câmaras de cima do coração e aumenta o risco de AVC.
A manchete que sobrou foi curta: ômega-3 dá arritmia. Daí em diante ficou difícil conversar sobre o assunto. Quem toma a cápsula ouviu que estava se arriscando, sem saber em qual dose, por quanto tempo, nem a partir de qual ponto de partida.
Em julho de 2026 saiu a revisão mais ampla já feita sobre o tema, na Circulation: Arrhythmia and Electrophysiology. Ela não desmente o sinal de 2021. Ela mostra onde o sinal mora. E o endereço é bem mais estreito do que a frase solta sugeria.
A conta com 35 ensaios
O grupo liderado por Nada Abuknesha reuniu 35 ensaios clínicos randomizados, 37 conjuntos de dados, 114.592 participantes. Para entrar, o ensaio precisava testar pelo menos 500 mg por dia de EPA mais DHA (os dois ômega-3 de origem marinha), tratar as pessoas por no mínimo 12 meses e incluir gente de 50 anos ou mais. O desfecho era fibrilação atrial nova, em quem não tinha a arritmia no início. As revisões anteriores chegavam a oito ensaios, no máximo.
Os autores partiram o material em quatro grupos, cruzando duas coisas: a dose (acima ou abaixo de 1.500 mg por dia) e o risco cardiovascular de quem entrou no estudo (alto ou baixo).
Só um dos quatro grupos mostrou aumento estatisticamente significativo: dose alta em pessoas de risco cardiovascular alto. Ali a razão de chances foi 1,43 (1,14 a 1,79), com 12 estudos e 25.603 participantes. Os outros três grupos não mostraram aumento significativo, com razões de chances de 1,07 (risco alto, dose baixa), 1,06 (risco baixo, dose baixa) e 1,03 (risco baixo, dose alta).
O número que mais importa é o absoluto. No único grupo com aumento, a diferença de risco foi de 0,8 ponto percentual (0,40 a 1,1). Em cem pessoas tratadas, isso é menos de um caso a mais.
Quem estava nesse grupo
Vale olhar o tipo de ensaio que sustenta esse 1,43. O REDUCE-IT, publicado no New England Journal of Medicine em 2019, é o caso mais conhecido. Foram 8.179 pacientes que já usavam estatina, com triglicerídeos entre 135 e 499 mg/dL, acompanhados por 4,9 anos em mediana, recebendo 4 g por dia de icosapento de etila, um EPA purificado de prescrição. O tratamento reduziu eventos isquêmicos de forma clara: 17,2% contra 22,0% no desfecho principal. E, no mesmo estudo, a internação por fibrilação atrial ou flutter foi maior no grupo tratado: 3,1% contra 2,1%.
Ou seja: o sinal de arritmia aparece num cenário bem definido. Dose de medicamento, não de suplemento de prateleira. Paciente com doença cardiovascular estabelecida ou diabetes com fatores de risco, não executivo saudável. E dentro de um estudo em que o mesmo tratamento também derrubou infarto, AVC e morte cardiovascular. É um balanço, não um veredito.
Onde os dados discordam
Aqui começa a parte que a manchete nunca carrega.
A revisão de 2021 também viu o efeito crescer com a dose: razão de risco 1,49 (1,04 a 2,15) acima de 1 g por dia, contra 1,12 (1,03 a 1,22) em 1 g ou menos. A diferença relevante é esta: naquela conta, o grupo de dose baixa também deu aumento estatisticamente significativo. Na revisão de 2026, não deu. Os dois trabalhos usaram cortes de dose diferentes, critérios de inclusão diferentes e número de ensaios muito diferente. Não é o caso de escolher o resultado mais confortável e seguir a vida.
Há um conflito de interesse declarado que precisa ser dito em voz alta. Entre os autores da revisão de 2026 estão o diretor médico de uma empresa que vende produtos de ômega-3 e um pesquisador com participação em um laboratório que vende exame de ácidos graxos no sangue. A autora principal recebeu apoio de uma premiação ligada à indústria do setor. Isso não invalida os números, que estão em revista revisada por pares e podem ser conferidos linha por linha. Mas entra na leitura.
Os próprios autores listam limites. Em vários ensaios a apuração da fibrilação atrial era pouco clara, porque os investigadores perderam acesso às bases originais. E o grupo de risco baixo com dose alta teve poucos eventos, o que deixa aquele resultado provisório.
Falta um detalhe de método, e ele é grande. Quando se mede ômega-3 no sangue em vez de sortear cápsulas, o resultado anda na direção oposta. Um consórcio de 17 coortes publicado no JACC em 2023, com 54.799 pessoas e 7.720 casos de fibrilação atrial ao longo de 13,3 anos em mediana, não achou risco maior: razão de risco 0,93 (0,87 a 0,99) para EPA mais DHA. Os autores concluíram que as recomendações de consumo de peixe podem ser mantidas. No UK Biobank, com 261.108 pessoas e 12,7 anos de seguimento, o nível de ômega-3 no plasma seguiu a mesma direção (0,89; 0,86 a 0,93).
Esses dois últimos são desenhos observacionais. Mostram associação, não causa. E medem uma coisa diferente do ensaio clínico: o que está circulando no sangue, vindo em boa parte da comida, e não a cápsula que alguém engoliu por ordem de sorteio.
Na prática
- Saiba qual número você toma. No rótulo, o que conta é o EPA mais DHA por dia, não os miligramas de óleo da cápsula. A diferença entre os dois costuma ser grande.
- Leve esse número para quem cuida do seu coração. Dose, manter ou suspender é decisão de médico, com o seu histórico na mesa. Não é decisão de artigo nem de rótulo.
- Separe comida de cápsula. O sinal de arritmia vem de suplementação e sobretudo de dose de medicamento. As análises de nível sanguíneo não apontaram risco maior.
- Se você já tem doença cardiovascular, diabetes com fatores de risco ou triglicerídeos altos e usa ômega-3 em dose alta, essa conversa é mais urgente que a média. É exatamente o perfil do único grupo em que o aumento apareceu.
- Repare no pulso, não só no aplicativo. Palpitação que dura minutos, batimento irregular ao apalpar o punho, falta de ar fora do esforço de sempre, tontura ou desmaio merecem avaliação médica, independentemente do que o relógio mostrou.
Na minha visão, o que essa revisão entrega não é absolvição nem condenação. É endereço. Virou possível dizer em que dose e em que tipo de pessoa o risco foi medido, em vez de repetir uma frase sem sujeito.
E fica a pergunta honesta, que nenhum dos dois lados fechou: por que nível alto de ômega-3 no sangue caminha junto com menos arritmia, enquanto dose alta em cápsula caminha junto com mais. Ninguém sabe ainda.
Fontes
- Gencer B, Djousse L, Al-Ramady OT, Cook NR, Manson JE, Albert CM. Effect of Long-Term Marine omega-3 Fatty Acids Supplementation on the Risk of Atrial Fibrillation in Randomized Controlled Trials of Cardiovascular Outcomes: A Systematic Review and Meta-Analysis. Circulation, 2021; 144(25):1981-1990.
- Abuknesha NR, O'Keefe JH, Qian F, Tintle NL, et al. Effects of Omega-3 Fatty Acid Treatment on Risk for Atrial Fibrillation: An Updated Meta-Analysis of 35 Trials including 114 592 Individuals. Circulation: Arrhythmia and Electrophysiology, 2026; 19(8):e014785.
- Bhatt DL, Steg PG, Miller M, et al. Cardiovascular Risk Reduction with Icosapent Ethyl for Hypertriglyceridemia (REDUCE-IT). New England Journal of Medicine, 2019; 380:11-22.
- Qian F, Tintle N, Jensen PN, et al. (Fatty Acids and Outcomes Research Consortium). Omega-3 Fatty Acid Biomarkers and Incident Atrial Fibrillation. Journal of the American College of Cardiology, 2023; 82(4):336-349.
- O'Keefe E, O'Keefe JH, Tintle NL, Franco WG, Westra J, Harris WS. Associations Between Plasma Omega-3 and Fish Oil Use With Risk of Atrial Fibrillation in the UK Biobank. Journal of the American Heart Association, 2025; 14(24):e043031.
Este texto é orientação de hábito, feita a partir de estudos publicados. Ele não substitui avaliação médica, e não serve para diagnosticar nem para mudar tratamento ou medicação. Se algo aqui conversa com um sintoma seu, leve a pergunta a quem te acompanha.
5 estudos
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