
W&W Circle · Coração
O escore de cálcio separou 1,9% de 14,3% de risco, e só numa faixa estreita
A diretriz americana de 2026 subiu a tomografia de cálcio ao degrau mais forte de recomendação. Um estudo deste mês, com 6.098 pessoas, mostrou que ela somou 0,02 à capacidade de prever eventos no geral, e que quase tudo que ela entrega está em quem tem risco de 3% a 10% em dez anos.
Todo pacote de check-up executivo tem um item que parece o mais importante de todos: a tomografia que mede cálcio nas artérias do coração, o escore de cálcio coronariano. Cinco minutos de máquina, nenhuma agulha, e sai um número que diz quanta placa calcificada você já carrega. É o exame que mais parece uma foto do futuro, e muitas vezes o que mais se paga por fora.
A pergunta que quase nunca entra no orçamento é a que um empresário faria em qualquer outra compra de informação: o que esse número muda na decisão que eu ia tomar de qualquer jeito?
Em 2026 essa pergunta ganhou duas respostas que não combinam bem. A diretriz americana de dislipidemia subiu o escore de cálcio para o degrau mais forte de recomendação. Um estudo publicado em 6 de outubro na JAMA mediu o quanto ele acrescenta e achou pouco, exceto numa faixa estreita de gente.
A diretriz subiu o exame de nível e estreitou quem faz
A diretriz de 2026 da ACC, da AHA e de outras nove entidades trocou a calculadora de risco. Saiu a equação de 2013 e entrou a PREVENT, publicada pela American Heart Association na Circulation em 2024, desenvolvida em 3.281.919 pessoas e validada em outras 3.330.085. Ela roda com o que já está no exame de rotina: idade, colesterol, pressão, tabagismo, diabetes e a função do rim pela taxa de filtração glomerular estimada. Não pede imagem nenhuma.
O detalhe que quase ninguém repassa é onde a diretriz manda usar a tomografia: de forma seletiva, em quem tem risco estimado de 3% a menos de 10% de evento em dez anos. Não é exame de todo mundo: é exame de desempate, para quando a conta já foi feita e ficou no meio.
O estudo deste mês: 0,02 no geral
O trabalho de Huang e colegas pegou 6.098 participantes do MESA, estudo americano que acompanha adultos de 45 a 79 anos sem doença cardiovascular. Idade média de 61,4 anos, 52% mulheres, risco médio estimado de 6,4% em dez anos, 49% com algum cálcio nas coronárias. Em dez anos, 366 pessoas (6%) tiveram um evento.
A estatística C da PREVENT sozinha, que mede o quanto um modelo acerta ao ordenar quem vai ter evento e quem não vai (0,5 é sorteio e 1 é perfeito), foi 0,73 (intervalo de confiança de 95%: 0,70 a 0,75). Somando o escore de cálcio, subiu 0,02 (0,01 a 0,03). O índice líquido de reclassificação, que desconta quem foi movido para a categoria errada, ficou em 0,095 (0,053 a 0,137). Em bom português: no conjunto, a tomografia melhorou pouco a capacidade de separar quem teria evento de quem não teria.
O mesmo estudo mostra onde ela não é pouco. Entre quem estava na faixa limítrofe, de 3% a menos de 5%, a chance de evento em dez anos foi de 1,9% com cálcio zero, 3,9% com cálcio entre 1 e 99, 7,4% entre 100 e 299 e 14,3% com 300 ou mais. É a mesma pessoa no papel, com sete vezes de diferença no resultado real. Por isso os autores terminaram apoiando o uso seletivo do exame, e não o abandono dele. Vale registrar: o grupo inclui autores que declaram honorários de empresas de imagem cardíaca, como a Heartflow e a Nanox AI. O achado de que o exame acrescenta pouco vem, em parte, de gente sem interesse nisso.
Zero não quer dizer a mesma coisa para todo mundo
Um segundo trabalho, de Rikhi e colegas, no Journal of the American College of Cardiology em agosto de 2026, foi na mesma coorte com outra pergunta: o que o cálcio zero significa dentro de cada grupo de indicação de tratamento. Foram 5.698 pessoas, idade média de 61,5 anos.
Em quem não tinha indicação de tratamento, a taxa de eventos com cálcio zero foi de 1,2 por mil pessoas por ano. Em quem já tinha indicação, o mesmo cálcio zero veio com 5,8 por mil por ano, quase cinco vezes mais.
A leitura é desconfortável para quem queria uma licença: o zero tranquiliza bem em quem já era de baixo risco e tranquiliza pouco em quem chegou ao exame com risco alto. Os autores escrevem que, em quem já cruzou o limiar de tratamento, o cálcio zero não deve ser usado para descartar a conduta.
O que nenhum estudo provou ainda
Nada disso é o mesmo que provar que fazer o exame faz viver mais. O único ensaio randomizado grande de rastreamento com tomografia, o DANCAVAS, sorteou 46.611 homens dinamarqueses de 65 a 74 anos entre receber o convite para um pacote de rastreio ou seguir a vida. Depois de 5,6 anos, morreram 12,6% dos convidados e 13,1% do controle, razão de risco de 0,95 (0,90 a 1,00), com p de 0,06. Não alcançou significância estatística.
Três limites mudam o alcance disso: eram só homens, bem mais velhos que quem compra check-up executivo, e apenas 62,6% apareceram. O DANCAVAS testou o convite ao rastreio em bloco, não o escore de cálcio isolado em quem estava em dúvida sobre tratar. Ainda assim, é o dado mais duro que existe, e não mostrou ganho de sobrevida.
A radiação não é o problema. Um levantamento na JAMA em abril de 2026, com 19.302 pacientes de 742 centros em 101 países, encontrou dose efetiva mediana de 1,2 milisievert para o escore de cálcio, contra 7,4 para a angiotomografia de coronárias. O custo maior é a cascata de decisões depois de um número que ninguém sabia usar.
Na prática
- Antes de marcar a tomografia, calcule seu risco de dez anos na PREVENT, a calculadora gratuita da American Heart Association, com o último exame de sangue e a última pressão medida de verdade. Abaixo de 3% ou a partir de 10%, a tomografia está fora da faixa em que a diretriz a recomenda.
- Confira se o último exame trouxe creatinina e taxa de filtração glomerular estimada. A PREVENT precisa delas, e esse item barato falta em muito pacote que cobra caro pela imagem.
- Pergunte antes de pagar: o que muda na conduta se der zero, e o que muda se der 300? Se as duas respostas forem iguais, é informação que não altera decisão.
- Peça o valor numérico e o percentil para idade e sexo, não só a palavra leve ou moderado. Os cortes que aparecem nos estudos e na diretriz são o zero, o 100 e o percentil 75.
- Leve ao cardiologista, e não ao balcão do pacote, estas três situações: risco entre 3% e 10% com a decisão de tratar em aberto, infarto ou morte súbita precoce em pai, mãe ou irmão, ou um escore acima de 100 que nunca gerou conduta.
A decisão de iniciar ou não um tratamento para colesterol é clínica e não sai de um número de tomografia. O que a safra de 2026 mostra é mais simples: o escore de cálcio é um exame bom numa faixa estreita de pessoas e um gasto quase neutro fora dela. Na minha visão, é o mesmo erro do painel de indicadores de empresa: compra-se a métrica mais vistosa e deixa-se de medir a que estava barata do lado.
Fontes
- 2026 ACC/AHA/AACVPR/ABC/ACPM/ADA/AGS/APhA/ASPC/NLA/PCNA Guideline on the Management of Dyslipidemia: A Report of the American College of Cardiology/American Heart Association Joint Committee on Clinical Practice Guidelines. Circulation, 2026.
- Khan SS, Matsushita K, Sang Y, et al. Development and Validation of the American Heart Association's PREVENT Equations. Circulation, 2024;149(6):430-449. Derivacao em 3.281.919 pessoas e validacao externa em 3.330.085.
- Huang X, Petito LC, Allen NB, et al. Predictive Utility of Coronary Artery Calcium Score Added to the PREVENT Atherosclerotic Cardiovascular Disease Equations. JAMA, 6 de outubro de 2026;336(13):1126-1134. MESA, 6.098 participantes, 10 anos de seguimento.
- Rikhi R, Chen H, Mirzai S, et al. The Role of Coronary Artery Calcium in Statin Eligibility Based on the American Heart Association's PREVENT Calculator: Insights From MESA. Journal of the American College of Cardiology, 18 de agosto de 2026;88(7):739-748. 5.698 participantes.
- Lindholt JS, Sogaard R, Rasmussen LM, et al. Five-Year Outcomes of the Danish Cardiovascular Screening (DANCAVAS) Trial. New England Journal of Medicine, 2022;387(15):1385-1394. Ensaio randomizado com 46.611 homens de 65 a 74 anos.
- Einstein AJ, Williams MC, Weir-McCall JR, et al. Worldwide Radiation Dose in Coronary Artery Disease Diagnostic Imaging. JAMA, 2026;335(13):1148-1158. 19.302 pacientes em 742 centros de 101 paises.
Este texto é orientação de hábito, feita a partir de estudos publicados. Ele não substitui avaliação médica, e não serve para diagnosticar nem para mudar tratamento ou medicação. Se algo aqui conversa com um sintoma seu, leve a pergunta a quem te acompanha.
6 estudos
Ver as fontes