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Tênis de corrida sobre asfalto molhado ao amanhecer

W&W Circle · Condicionamento

Entre os condicionados, o IMC não mudou o risco de morte; nos menos condicionados, dobrou

Uma revisão de 20 estudos e 398.716 observações: no grupo condicionado o aumento de risco não apareceu em nenhuma faixa de IMC. No grupo pouco condicionado o risco dobrou, inclusive em quem tinha peso normal. E bastava estar acima do percentil 20 para contar como condicionado.

Kauã Ramos · 9 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

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O exame chega com o IMC em negrito. Passou de 30, a conversa do consultório já está escrita: perder peso. Ficou em 23, a conversa quase não acontece.

Uma revisão publicada no British Journal of Sports Medicine inverte a ordem dessa conversa. Os autores reuniram 20 estudos de coorte e rodaram as metanálises em 398.716 observações, cerca de dois terços de homens. Em todas elas as pessoas tinham duas medidas: o IMC e um teste de esforço máximo, que mede quanta energia o corpo consegue produzir por minuto. A pergunta era qual das duas prediz melhor quem morre.

A resposta é desconfortável para quem se pesa e confortável para quem treina.

O que os números dizem

Tomando como referência o grupo de peso normal e condicionado, o risco de morrer por qualquer causa ficou assim:

  • sobrepeso e condicionado: 0,96, intervalo de confiança de 0,61 a 1,50
  • obesidade e condicionado: 1,11, de 0,88 a 1,40
  • peso normal e pouco condicionado: 1,92, de 1,43 a 2,57
  • sobrepeso e pouco condicionado: 1,82, de 1,47 a 2,24
  • obesidade e pouco condicionado: 2,04, de 1,54 a 2,71

Vale ler a lista duas vezes. Nos três grupos condicionados, o intervalo de confiança atravessa o 1, ou seja, o aumento de risco não apareceu, independentemente da faixa de IMC. Nos três grupos pouco condicionados, o risco quase dobrou ou dobrou. E isso inclui quem tinha peso normal.

Para morte cardiovascular o desenho se repete, com uma ressalva que precisa vir junto: os intervalos ficam largos. O grupo com obesidade e pouco condicionamento aparece com 3,35, mas de 1,17 a 9,61. Um intervalo desse tamanho diz que a direção é confiável e o tamanho exato não é.

"Condicionado" era uma régua mais baixa do que parece

Aqui está o detalhe que muda como o resultado deve ser lido, e ele está escrito no próprio artigo: na maioria dos estudos incluídos, bastava a pessoa ficar acima do percentil 20 do grupo dela para entrar na categoria condicionado. Não é atleta. É não estar no quinto mais baixo da distribuição.

Isso ajuda e limita ao mesmo tempo. Ajuda porque o patamar que apagou a diferença de IMC nesses dados é alcançável por quem está começando. Limita porque a revisão não autoriza a frase "condicionamento cancela o peso". Ela autoriza outra: sair do fundo da distribuição muda muito.

Um estudo de 2018 no JAMA Network Open dá escala a isso. Foram 122.007 adultos encaminhados para teste em esteira, com 13.637 mortes em uma mediana de 8,4 anos de seguimento. Ali o grupo de condicionamento baixo apareceu com risco 5,04 vezes maior de morrer que o grupo de elite, de 4,10 a 6,20. No mesmo modelo ajustado, ser fumante aparecia com 1,41 e ter diabetes com 1,40. Em METs, que são múltiplos do gasto de energia em repouso, o grupo baixo ficava em 6,1 na média e o de elite em 13,8.

Duas observações antes de alguém levar esse 5,04 para a mesa do jantar. A amostra era de pessoas encaminhadas para teste de esforço, não da população geral, e o condicionamento foi medido uma única vez. Em troca, o estudo não encontrou teto: o benefício continuava subindo nos mais condicionados.

Onde há desacordo

Os próprios autores da revisão escrevem que a queda de risco com mais condicionamento não é linear, e que o maior ganho está em sair da categoria menos condicionada, desacelerando depois. O estudo do JAMA Network Open não achou esse ponto de saturação. Os dois podem estar certos em populações diferentes, e a diferença importa na prática: se o ganho desacelera, o alvo é sair do fundo e manter; se não há teto, vale continuar subindo a vida inteira.

A replicação também não foi igual nos dois sexos. No UK Biobank, 77.169 pessoas com média de 57,8 anos e 53% de mulheres, homens com obesidade e pouco condicionamento apareceram com 1,78, de 1,17 a 2,71, e homens com obesidade e condicionados com 0,94, de 0,60 a 1,48. Nas mulheres com obesidade e pouco condicionamento o valor foi 1,09, de 0,68 a 1,77, sem aumento detectável, e os próprios autores registram que os achados nelas eram sensíveis a escolhas de análise. Vale dizer que o UK Biobank estimou o condicionamento por um teste submáximo de bicicleta, método diferente do teste máximo usado na revisão. Os números não são comparáveis ponto a ponto.

Três limites fecham a leitura. Primeiro, a revisão mediu morte, por qualquer causa e cardiovascular. Ela não mediu dor, articulação, apneia do sono nem fígado. "Não aumentou a mortalidade" não é a mesma frase que "não tem consequência". Segundo, IMC não é composição corporal, e entre os 20 estudos só dois mediram composição corporal diretamente; as coortes eram em maioria norte-americanas, de nível socioeconômico mais alto e brancas. Terceiro, uma coisa que o leitor merece saber: dois dos autores da revisão publicaram em 2021 um artigo defendendo tratar obesidade com foco em atividade física em vez de perda de peso. Não há conflito financeiro declarado e isso não invalida as contas, mas é uma posição prévia conhecida, e quem lê tem direito de saber que ela existe.

Na prática

  1. Tenha um número de condicionamento, não só um de peso. A medida que esses estudos usaram é teste de esforço em clínica, com METs ou análise de gases. Se você só tem o valor estimado pelo relógio, trate a tendência dele ao longo dos meses como informação e o valor absoluto como palpite.
  2. Monte um teste de campo que você consiga repetir. Mesmo percurso, mesmo horário, mesmo esforço percebido, anotando tempo e frequência cardíaca. Em três meses a comparação é com você mesmo, e ela vale mais que qualquer tabela.
  3. Mire sair do fundo antes de mirar a elite. Se você hoje não treina, o maior ganho desta revisão está no primeiro degrau, não no último. O patamar que apagou o efeito do IMC nesses dados era o percentil 20.
  4. Não use o resultado para parar de olhar cintura, pressão e exames. A revisão mediu morte. Pressão arterial, glicemia e circunferência de cintura seguem sendo números próprios, com conduta própria.
  5. Se você treina e pesa mais que a tabela manda, leve o teste para a consulta. O dado de condicionamento muda qual conversa deveria estar acontecendo, e ele não aparece no IMC.
  6. Procure um profissional antes de fazer teste máximo se você tem doença cardiovascular conhecida, dor ou aperto no peito durante esforço, desmaio, palpitação que não passa ou falta de ar desproporcional ao que está fazendo. Teste máximo é esforço de verdade, não formalidade.

Nenhum desses estudos é experimento. São coortes, e coorte mostra associação, não causa. Ninguém sorteou gente para ficar sedentária, e parte do grupo pouco condicionado podia já estar doente de um jeito que o ajuste não capturou.

Ainda assim, três bases independentes apontam para o mesmo lugar. Na minha visão, a mudança mais útil desta semana é administrativa: no app ou no caderno onde você registra peso, abrir um campo ao lado para o condicionamento e passar a preencher os dois. O peso continua sendo um número. Ele só parou de ser o número.

Fontes

  1. 01Weeldreyer NR, De Guzman JC, Paterson C, Allen JD, Gaesser GA, Angadi SS. Cardiorespiratory fitness, body mass index and mortality: a systematic review and meta-analysis. British Journal of Sports Medicine, 2025 (publicado online em novembro de 2024).
  2. 02Mandsager K, Harb S, Cremer P, Phelan D, Nissen SE, Jaber W. Association of Cardiorespiratory Fitness With Long-term Mortality Among Adults Undergoing Exercise Treadmill Testing. JAMA Network Open, 2018;1(6):e183605.
  3. 03Tarp J, Grontved A, Sanchez-Lastra MA, Dalene KE, Ding D, Ekelund U. Fitness, Fatness, and Mortality in Men and Women From the UK Biobank: Prospective Cohort Study. Journal of the American Heart Association, 2021;10(6):e019605.
  4. 04Gaesser GA, Angadi SS. Obesity treatment: Weight loss versus increasing fitness and physical activity for reducing health risks. iScience, 2021;24(10):102995.

Este texto é orientação de hábito, feita a partir de estudos publicados. Ele não substitui avaliação médica, e não serve para diagnosticar nem para mudar tratamento ou medicação. Se algo aqui conversa com um sintoma seu, leve a pergunta a quem te acompanha.