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Balança antiga de pratos de latão sobre uma mesa

W&W Circle · Composição corporal

A caneta não tira mais músculo do que a dieta tiraria

No substudo de composição corporal do SURMOUNT-1, 26% do peso perdido com tirzepatida era massa magra. No grupo que só mudou estilo de vida, 25%. A proporção é a mesma; o que muda é o total.

Kauã Ramos · 7 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

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Virou consenso de corredor de academia: quem emagrece com os remédios novos de obesidade perde músculo junto, e perde muito. A imagem é forte, um corpo que afina por fora e desmonta por dentro. E tem base em um número real: nos ensaios, cerca de um quarto do peso que sai é massa magra.

O problema é o que falta na frase. Esse um quarto não é característica do remédio. É a assinatura de praticamente todo emagrecimento, inclusive o feito com dieta, planilha e disciplina. Entre 2025 e 2026 saíram as leituras de composição corporal que permitem comparar os dois caminhos na mesma régua, e a comparação troca a pergunta de lugar. Não é mais "quanto músculo o remédio come", é "quanto de massa magra qualquer pessoa negocia por quilo de gordura perdido, e o que muda essa troca". Na minha visão, é aí que o assunto sai do susto e vira decisão.

A proporção é a mesma, o total não é

O substudo de composição corporal do SURMOUNT-1 mediu 160 participantes com DXA (raio X de dupla energia, o exame de referência) no início e em 72 semanas: 124 usando tirzepatida e 36 no placebo, todos com orientação de estilo de vida.

Em 72 semanas, o peso caiu 21,3% com tirzepatida e 5,3% no placebo. A gordura caiu 33,9% e 8,2%. A massa magra caiu 10,9% e 2,6%.

A conta que decide o argumento é a última. Do peso perdido com o remédio, 74% era gordura e 26% massa magra. No placebo, 75% e 25%. A mesma proporção, mantida nos subgrupos de idade, sexo e faixa de perda de peso.

Traduzindo: quem perde 20 kg perde perto de 5 kg de massa magra, e quem perde 5 kg perde perto de 1,2 kg. O remédio não piora a troca, ele aumenta o volume negociado.

Duas ressalvas do próprio artigo: o estudo foi financiado pela Eli Lilly, fabricante da tirzepatida, e a análise de proporção é post hoc, não era o desfecho planejado.

Massa magra no exame não é músculo

O estudo SEMALEAN acompanhou 106 pacientes de um hospital universitário em Rouen, na França, com semaglutida na dose mais alta, medindo DXA e força de preensão aos 7 e aos 12 meses.

O peso caiu 10% em 7 meses e 13% em 12. A gordura caiu 14% e 18%. A massa magra caiu 3 kg nos primeiros 7 meses e depois parou de cair. E a força de preensão subiu: mais 3,7 kg em 7 meses e mais 4,1 kg em 12 (o resumo do próprio artigo registra mais 4,5 kg aos 12 meses, divergência interna que vale anotar). A obesidade sarcopênica, que combina excesso de gordura com força e músculo baixos, caiu de 49% para 33% dos pacientes.

Perder massa magra e ganhar força ao mesmo tempo só parece contradição porque "massa magra" é um apelido ruim. No DXA, esse compartimento inclui água, glicogênio, órgãos e pele, não só músculo. Quem emagrece rápido perde água junto, e o próprio estudo mediu essa queda.

O ensaio BELIEVE testou isso de frente: 507 adultos com obesidade, nove grupos, 48 semanas e extensão até 72, comparando semaglutida, um anticorpo que bloqueia receptores de activina para proteger músculo, e as combinações. Na semana 72, a massa magra variou mais 2,5% com o anticorpo isolado, menos 7,4% com semaglutida isolada e menos 2,9% na combinação de doses altas. A fração do peso perdido que veio de gordura foi 100%, 75,6% e 92,2%.

Parecia o fim do problema. Só que a força de preensão melhorou de forma significativa em apenas um dos grupos de combinação (mais 4,8 kg contra mais 1,7 kg do placebo). Os outros ficaram parecidos com o placebo. Os autores listam isso como limitação, junto com o fato de terem usado DXA, onde o músculo é medido como parte da massa magra, e recomendam ressonância em estudos futuros. O ensaio também foi financiado pela Eli Lilly. Deu para separar gordura de massa magra na balança; não deu para provar, ali, que isso virou mais força.

Onde os especialistas não concordam

Em 2024, a JAMA publicou um artigo de opinião de Conte, Hall e Klein com uma tese incômoda: a perda de massa magra que acompanha o emagrecimento pode não ser clinicamente relevante na maior parte das pessoas. O raciocínio é mecânico. Quem tem obesidade carrega mais massa magra justamente para sustentar o peso, e precisa de menos dela depois.

A objeção vem do lado da idade. Os próprios autores do substudo do SURMOUNT-1 escrevem que a queda pode ser indesejável em adultos mais velhos que já têm obesidade sarcopênica ou risco dela. E é o subgrupo com menos dado: no placebo com 65 anos ou mais, só 63% do peso perdido veio de gordura, a pior proporção de todas as análises.

O que ninguém sabe ainda é o que mais importa: não existe ensaio longo o suficiente medindo quedas, fraturas e independência funcional anos depois.

O que tem ensaio randomizado do seu lado

Uma revisão publicada em 2026 juntou 34 ensaios randomizados e 1.455 pessoas com sobrepeso ou obesidade para responder uma pergunta só: treinar durante o déficit calórico muda a composição do que se perde?

Muda. Somar treino preservou 0,87 kg de massa livre de gordura (intervalo de confiança de 95%: 0,59 a 1,16 kg), o que equivale a evitar 45,7% da perda. Por modalidade, o treino misto ficou em 1,20 kg, o de força em 0,80 kg e o aeróbico em 0,53 kg. Duas honestidades: os testes de subgrupo não acharam diferença significativa entre as modalidades, só tendência a favor de incluir força, e os autores registraram sinal de viés de publicação, o que sugere que o efeito real pode ser menor.

Na prática

  • Troque a pergunta "perdi músculo?" por "perdi força?". Massa magra é compartimento de exame, força é desfecho. Um dinamômetro mede em trinta segundos.
  • Use o corte que o SEMALEAN adotou como alerta, não como diagnóstico: preensão abaixo de 27 kg em homens e 16 kg em mulheres é o limite de força reduzida.
  • Treine força pelo menos duas vezes por semana e some aeróbico quando a agenda permitir. É a intervenção com ensaio randomizado atrás dela, e o melhor ponto estimado foi o do treino misto.
  • Compare exame com exame igual: DXA com DXA, bioimpedância com bioimpedância, mesmo aparelho, mesmo horário, mesmo estado de hidratação. Trocar o método no meio inventa variação que não existe.
  • Remeça depois de três meses, não de três semanas. A queda inicial tem muita água dentro e tende a estabilizar, como no SEMALEAN entre o sétimo e o décimo segundo mês.
  • Procure um profissional, de preferência quem acompanha o seu tratamento, se a preensão cair abaixo dos cortes acima, se aparecer dificuldade nova para levantar de uma cadeira sem usar os braços, ou se houver duas quedas no mesmo ano.

A conclusão não é que massa magra não importa. É que o número isolado no laudo assusta mais do que informa, e a parte da conta que está na sua mão não é o remédio nem o exame: é o que você faz com a barra enquanto o peso cai.

Fontes

  1. 01Look M, Dunn JP, Kushner RF, et al. Body composition changes during weight reduction with tirzepatide in the SURMOUNT-1 study of adults with obesity or overweight. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2025;27(5):2720-2729.
  2. 02Alissou M, Demangeat T, Folope V, et al. Impact of Semaglutide on fat mass, lean mass and muscle function in patients with obesity: The SEMALEAN study. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2026;28(1):112-121.
  3. 03Heymsfield SB, Aronne LJ, Montgomery P, et al. Bimagrumab plus semaglutide alone or in combination for the treatment of obesity: a randomized phase 2 trial (BELIEVE). Nature Medicine, 2026;32(3):869-882.
  4. 04Conte C, Hall KD, Klein S. Is Weight Loss-Induced Muscle Mass Loss Clinically Relevant? JAMA, 2024;332(1):9-10.
  5. 05Deller M, Weiershaus J, Held S, et al. Effects of Calorie Restriction With and Without Strength, Endurance or Mixed Training on Fat-Free and Skeletal Muscle Mass in Overweight or Obese Individuals: A Systematic Review With Pairwise and Network Meta-Analysis of Randomized Controlled Studies. Diabetes, Obesity and Metabolism, 2026;28(8):6810-6823.

Este texto é orientação de hábito, feita a partir de estudos publicados. Ele não substitui avaliação médica, e não serve para diagnosticar nem para mudar tratamento ou medicação. Se algo aqui conversa com um sintoma seu, leve a pergunta a quem te acompanha.