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A sociedade que criou o alvo de vitamina D abandonou o alvo e o exame de rotina

Em 2024 a Endocrine Society deixou de endossar o alvo de 30 ng/mL e passou a sugerir não dosar vitamina D em adulto saudável. Os grandes ensaios não acharam benefício, mas testaram gente que já tinha o nível normal.

Kauã Ramos · 3 de outubro de 2026 · 6 min de leitura

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A vitamina D entrou no check-up padrão sem nunca ter sido aprovada para isso. Hoje é raro um painel anual de executivo que não traga a linha "25-hidroxivitamina D", um valor, uma seta para baixo e, em seguida, uma cápsula. A lógica parece sólida: existe um número, o número está abaixo do ideal, corrige-se o número.

O problema é que a entidade que mais fez para popularizar esse raciocínio desfez o próprio raciocínio. Em 2024 a Endocrine Society publicou uma diretriz nova e, em março de 2026, a American Family Physician circulou o resumo dela para clínicos de família. As duas dizem a mesma coisa, e ela é desconfortável: para adulto saudável, não existe alvo de vitamina D definido, e não há motivo para dosar por rotina.

Isso não quer dizer que vitamina D não importe. Quer dizer que a pergunta mudou. Deixou de ser "qual é o meu número" e passou a ser "esse número vai mudar alguma decisão".

O que a diretriz de 2024 diz, e o que ela não diz

A diretriz (Demay e colaboradores, Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 2024) foi construída em torno de 14 perguntas clínicas, priorizando ensaios randomizados contra placebo em população geral, isto é, gente sem indicação prévia de tratamento ou de exame.

Três conclusões importam para quem faz check-up:

  • Para adultos saudáveis com menos de 75 anos, o painel sugere não suplementar acima da ingestão de referência oficial com o objetivo de reduzir risco de doença.
  • O painel sugere não dosar 25(OH)D de rotina em nenhuma das populações que analisou, incluindo pessoas com obesidade ou pele mais escura, porque não encontrou ensaio mostrando benefício em medir.
  • O painel não definiu nível ideal. A diretriz de 2011 da mesma sociedade defendia alvo de 30 ng/mL (75 nmol/L). A de 2024 não endossa mais esse alvo, nem define faixas de deficiência e suficiência.

O que a diretriz não diz: que suplemento não serve para ninguém. Ela sugere suplementação empírica, sem medir antes, para crianças e adolescentes de 1 a 18 anos, para gestantes, para adultos com pré-diabetes de alto risco e para quem tem 75 anos ou mais, neste último caso por possível redução de mortalidade. E ela não se aplica a quem já tem indicação estabelecida, como doença óssea metabólica, doença renal crônica ou má absorção.

Os dois maiores ensaios

O VITAL (Manson e colaboradores, New England Journal of Medicine, 2019) sorteou 25.871 adultos nos Estados Unidos para receber 2.000 UI de vitamina D3 por dia ou placebo, com acompanhamento mediano de 5,3 anos. Não houve redução de câncer invasivo nem de eventos cardiovasculares maiores. No desfecho cardiovascular, o risco relativo ficou em 0,97, com intervalo de confiança de 95% de 0,85 a 1,12, ou seja, atravessando o 1,00 nas duas direções. Uma análise posterior, nos mesmos participantes, também não encontrou redução de fraturas, e vale registrar que ninguém ali havia sido selecionado por deficiência, massa óssea baixa ou osteoporose.

O D-Health foi na mesma direção, por outro caminho: 21.315 australianos de 60 a 84 anos, recebendo 60.000 UI por mês. O grupo publicou ausência de efeito sobre incidência de câncer e, em análise de janeiro de 2026, ausência de efeito sobre hipertensão, colesterol alto e diabetes tipo 2, medidos pelo início de tratamento medicamentoso.

Até a infecção respiratória, que era o resultado mais consistente a favor, encolheu. A atualização de 2025 da maior meta-análise do tema (Jolliffe e colaboradores, Lancet Diabetes and Endocrinology) reuniu 40 ensaios e 61.589 participantes e não encontrou mais efeito estatisticamente significativo no conjunto, nem diferença clara conforme o nível inicial de vitamina D.

O limite que ninguém resolveu

Aqui entra a objeção séria, e ela é boa.

Quase todo mundo nesses ensaios já tinha vitamina D normal. Nos grandes estudos cardiovasculares, a média de 25(OH)D dos participantes girava em torno de 70 a 77 nmol/L, perto de 30 ng/mL, bem acima dos 20 ng/mL (50 nmol/L) usados para classificar status baixo. Além disso, os protocolos permitiam que cada participante continuasse tomando o próprio suplemento.

Testar reposição em quem não está carente é parecido com testar transfusão em quem não está anêmico. Uma reanálise publicada em julho de 2026 na Nutrients fez exatamente essa conta: usou o UK Biobank para simular o que o D-Health teria encontrado numa população deficiente e concluiu que o resultado nulo do ensaio era esperado numa população já reposta. Uma revisão de 2025 no European Journal of Nutrition, que aplicou critérios de causalidade ao conjunto da evidência cardiovascular, chegou a uma conclusão honesta e incômoda: não é possível dizer se a vitamina D tem papel na prevenção cardiovascular.

Então vale separar as três camadas. Fato medido: suplementar vitamina D em adulto de meia-idade com nível normal não reduziu câncer, evento cardiovascular nem fratura nos maiores ensaios já feitos. Hipótese: que haveria benefício em quem está de fato deficiente. O que ninguém sabe: qual nível de 25(OH)D corresponde a qual desfecho, porque nenhum ensaio foi desenhado para descobrir isso.

Tem ainda um detalhe que atrapalha qualquer alvo. O número do laudo depende do método do laboratório, e a variação entre métodos é grande o bastante para mudar quantas pessoas a mesma amostra classifica como deficientes. Perseguir a segunda casa decimal de um exame assim é perseguir ruído.

Na prática

  • Se você é adulto saudável com menos de 75 anos, não peça dosagem de vitamina D de rotina no check-up. Pergunte ao seu médico que decisão mudaria com o resultado.
  • Se já toma suplemento prescrito por algum motivo, não pare por causa deste texto. Leve a caixa na próxima consulta e pergunte qual era a indicação.
  • Se vai suplementar por indicação, pergunte sobre esquema diário em vez de dose alta espaçada. A diretriz de 2024 prefere o diário, e dose alta intermitente tem sinal de aumento de quedas e fraturas.
  • Pare de comparar valores entre laboratórios diferentes como se fossem a mesma régua.
  • Redirecione o esforço de otimizar esse número para o que tem ensaio por trás: força, condicionamento, sono e pressão arterial.

Quando o exame faz sentido

Dosar vitamina D continua indicado quando o resultado muda conduta. Alguns exemplos concretos: dor óssea difusa ou fraqueza muscular de cintura sem explicação; osteoporose ou fratura por fragilidade; cirurgia bariátrica ou doença que reduz absorção, como doença celíaca e doença inflamatória intestinal; doença renal crônica; uso de anticonvulsivante ou de glicocorticoide; hiperparatireoidismo; gestação com indicação específica. Nesses casos não é rastreamento, é investigação, e a diretriz deixa claro que não vale para eles.

A história da vitamina D nos últimos quinze anos é uma lição sobre o que acontece quando um marcador barato vira alvo. A associação entre nível baixo e doença é real e repetida em muitos estudos. A seta que faltava, a de que subir o número muda o desfecho, não apareceu nos ensaios.

Na minha visão, é isso que vale levar do episódio: antes de medir qualquer coisa, saiba o que você faria com cada resultado possível. Exame que não muda conduta não é informação, é ruído com custo.

Fontes

  1. 01Demay MB, Pittas AG, Bikle DD, et al. Vitamin D for the Prevention of Disease: An Endocrine Society Clinical Practice Guideline. The Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, 2024; 109(8):1907-1947.
  2. 02Practice Guidelines. Vitamin D for Prevention of Disease: Guidelines From the Endocrine Society. American Family Physician, marco de 2026; 113(3).
  3. 03Dalamaga M, Tsilingiris D, Petropoulou D, et al. From the Vitamin D Paradox to Precision Nutrition: Targeted Supplementation, Assay Pitfalls, and Clinical Decision-Making. Current Nutrition Reports, 2026.
  4. 04Manson JE, Cook NR, Lee IM, et al. Vitamin D Supplements and Prevention of Cancer and Cardiovascular Disease (ensaio VITAL, 25.871 participantes). The New England Journal of Medicine, 2019; 380:33-44.
  5. 05LeBoff MS, Chou SH, Ratliff KA, et al. Supplemental Vitamin D and Incident Fractures in Midlife and Older Adults. The New England Journal of Medicine, 2022; 387:299-309.
  6. 06Neale RE, English DR, McLeod DS, et al. The effect of vitamin D supplementation on cancer incidence in the randomised controlled D-Health Trial. Journal of Steroid Biochemistry and Molecular Biology, 2025; 250:106738.
  7. 07Duarte Romero BL, Armstrong BK, Baxter C, et al. Effect of Vitamin D Supplementation on Cardiometabolic Outcomes in Older Australian Adults: Results from the Randomized Controlled D-Health Trial. Nutrients, janeiro de 2026; 18:357.
  8. 08Jolliffe DA, Camargo CA, Sluyter JD, et al. Vitamin D supplementation to prevent acute respiratory infections: systematic review and meta-analysis of stratified aggregate data (40 ensaios, 61.589 participantes). The Lancet Diabetes and Endocrinology, 2025; 13(4):307-320.
  9. 09Kiely M, Brennan L, Dunlop T, et al. Prevention of chronic disease using vitamins: a case study of the vitamin D and cardiovascular disease hypothesis using evidence from randomised controlled and prospective cohort studies. European Journal of Nutrition, 2025; 64:199.
  10. 10Wang Y, Sha S, Gwenzi T, Schottker B, Brenner H. Impact of Vitamin D Supplementation on Hospitalizations for Infection: Results of the D-Health Trial Revisited. Nutrients, julho de 2026; 18:2276.

Este texto é orientação de hábito, feita a partir de estudos publicados. Ele não substitui avaliação médica, e não serve para diagnosticar nem para mudar tratamento ou medicação. Se algo aqui conversa com um sintoma seu, leve a pergunta a quem te acompanha.