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W&W Circle · Artigo

Levantar do chão sem as mãos é um teste sério, não brincadeira de criança

Num estudo do Rio de Janeiro com 4.282 pessoas de 46 a 75 anos, cada ponto a menos no teste de sentar e levantar apareceu associado a 33% mais risco de morte por causa natural em cerca de 12 anos. É retrato, não sentença.

Kauã Ramos · 7 de setembro de 2026 · 5 min de leitura

Sentar no chão e levantar sem usar as mãos parece brincadeira de criança, e muita gente trata assim. A ideia comum é que independência física é assunto para depois dos 80, e que até lá o corpo avisa quando alguma coisa começa a faltar.

Na minha visão, o corpo avisa pouco e compensa muito. A mão vai para o braço do sofá na hora de levantar, o chão vira um lugar que você evita, a cadeira baixa passa a incomodar. É essa compensação que esconde a perda por anos.

Um grupo de pesquisa do Rio de Janeiro transformou esse gesto num teste pontuado e acompanhou milhares de pessoas por mais de uma década. O resultado, publicado em 2025, é um bom motivo para levar o chão a sério.

Como o teste funciona

Você começa de pé, de preferência descalço, num espaço livre. Senta no chão e depois levanta, sem pressa e sem impulso.

A nota começa em 10: são 5 pontos para descer e 5 para subir. Cada apoio usado tira 1 ponto, seja mão, antebraço, joelho, lateral da perna ou a mão num móvel. Cambalear ou perder o equilíbrio no caminho tira meio ponto.

O gesto parece simples, mas pede várias coisas ao mesmo tempo: força de perna, equilíbrio, mobilidade de tornozelo e quadril, e a capacidade de levantar o próprio peso. É por isso que ele resume tanto num movimento só.

O que 12 anos de acompanhamento mostraram

O estudo é de Araújo e colegas, publicado em junho de 2025 no European Journal of Preventive Cardiology, com pessoas avaliadas na CLINIMEX, uma clínica do Rio de Janeiro. Participaram 4.282 pessoas de 46 a 75 anos, com idade média de 59 anos. As mulheres eram 32 por cento da amostra.

O acompanhamento mediano foi de 12,3 anos. Nesse período morreram 665 pessoas, 15,5 por cento do total. A proporção de mortes mudou muito conforme a nota do teste:

  • nota 10: 3,7 por cento;
  • de 8,5 a 9,5: 7 por cento;
  • nota 8: 11,1 por cento;
  • de 4,5 a 7,5: 20,4 por cento;
  • de 0 a 4: 42,1 por cento.

Na análise estatística do estudo, quem tirou de 0 a 4 teve risco de morte por causa natural 3,84 vezes o de quem tirou 10 (intervalo de confiança de 2,25 a 6,97, a faixa em que o valor real provavelmente está). Para morte cardiovascular, a razão foi de 6,05 (intervalo de 2,29 a 20,94).

Olhando ponto a ponto, numa análise ajustada só pela idade, cada ponto a menos no teste apareceu associado a 33 por cento mais risco de morte por causa natural e a 31 por cento mais risco de morte cardiovascular.

O que o estudo não permite concluir

O teste não causa nada. Ninguém morre por causa de uma nota, e nota alta não protege ninguém. Ele é um retrato.

A lista de percentuais é uma conta crua. Quem tira nota baixa pode ser, em média, mais velho ou ter mais doenças, e isso também pesa na mortalidade. Por isso vale olhar as razões de risco da análise estatística, que são uma comparação mais cuidadosa que a diferença bruta entre 3,7 e 42,1 por cento.

O intervalo da morte cardiovascular é largo, de 2,29 a 20,94. A direção do achado é clara, mas o tamanho exato do efeito é incerto.

A amostra veio de uma única clínica, teve maioria de homens e ficou entre 46 e 75 anos. Não dá para aplicar esses percentuais a quem tem 30 anos, nem tratar a lista como previsão sobre uma pessoa. É estatística de grupo.

E, principalmente, o estudo não testou se treinar para subir a nota muda o risco. Isso este trabalho não responde. O que se pode dizer é que as qualidades por trás da nota, como força, equilíbrio e mobilidade, respondem a treino.

Quando falar com um profissional antes

Descer ao chão envolve risco de queda. Pergunte ao seu médico antes de fazer o teste se você:

  • tem prótese de quadril ou de joelho;
  • fez cirurgia recente;
  • tem lesão ou dor articular;
  • caiu recentemente ou costuma sentir tontura ao se levantar.

Se sentir dor durante o teste, pare na hora. Dor não faz parte dele.

Na prática

O que vem abaixo é o formato que eu uso. Ele não foi testado no estudo, que só aplicou o teste e acompanhou as pessoas.

  • Faça o teste e anote. Num tapete, descalço, sem móvel por perto. Anote a nota com a data. Número baixo hoje é motivo para começar, não para desistir.
  • Duas sessões de força por semana, com perna nas duas. De 2 a 4 séries por exercício, de 6 a 12 repetições, parando com uma repetição sobrando. Agache até o ponto mais baixo que você controla sem dor.
  • Treine uma perna de cada vez. Afundo e subida no degrau, controlando a descida, porque na subida do chão uma perna costuma fazer boa parte do trabalho.
  • Dê atenção a tornozelo e quadril. Dois minutos de mobilidade no fim da sessão, porque é isso que costuma travar a descida.
  • Pratique o gesto dois minutos por dia. Sente e levante cinco vezes, do jeito que der, com apoio no começo se precisar.
  • Refaça o teste em oito semanas, do mesmo jeito. A meta não é tirar 10, é a sua nota ser maior que a de hoje. E treinar só o teste não basta: o gesto pode melhorar sem a força acompanhar.

Na minha visão, a perda de independência raramente tem data marcada. Ela começa no dia em que você para de fazer o gesto e ninguém anota.

Anotar a nota de hoje é o jeito mais barato de parar de adivinhar.

Fontes

  1. 01Araújo CGS, et al. Sitting rising test scores predict natural and cardiovascular causes of deaths in middle aged and older men and women. European Journal of Preventive Cardiology, 2025.

Este texto é orientação de hábito, feita a partir de estudos publicados. Ele não substitui avaliação médica, e não serve para diagnosticar nem para mudar tratamento ou medicação. Se algo aqui conversa com um sintoma seu, leve a pergunta a quem te acompanha.