W&W Circle · Artigo
A taça de vinho nunca foi remédio
Numa revisão de 107 estudos, a proteção do consumo moderado sumiu quando corrigiram quem entrava no grupo de comparação. Um relatório oficial discorda. Na parte do câncer, os dois lados concordam.
Você já ouviu que uma taça de vinho por dia faz bem para o coração.
Essa ideia veio de estudos de observação, que acompanham quem bebe e quem não bebe e comparam quem morre mais. Ninguém foi sorteado para beber ou não beber. E aí tudo depende de quem entra no grupo de referência.
Muitos estudos antigos colocaram no mesmo grupo de "abstêmios" quem nunca bebeu e quem parou de beber. Só que parte das pessoas para justamente porque ficou doente. O grupo de comparação já nasce mais doente, e quem bebe pouco parece mais saudável sem ter feito nada por isso. É o chamado viés do ex-bebedor.
A conta refeita com 4,8 milhões de pessoas
Em 2023, Zhao, Stockwell e colegas publicaram no JAMA Network Open uma revisão sistemática com metanálise de 107 estudos de coorte, somando 4.838.825 participantes e 425.564 mortes. A comparação foi contra quem nunca bebeu na vida, e o modelo ajustou o viés do ex-bebedor, a idade e o sexo das amostras, o país, o tempo de acompanhamento e se cada estudo controlou outros fatores de confusão.
Faixa por faixa:
- Até 24 gramas de álcool por dia: nenhuma redução de risco de morte que se distinguisse do acaso, nem no consumo ocasional (risco relativo 0,96) nem no baixo, de 1,3 a 24 gramas (0,93, com P de 0,07).
- De 25 a 44 gramas: risco 5% maior, com P de 0,28: pode ser acaso.
- De 45 a 64 gramas: risco 19% maior, e aí dificilmente é acaso (P menor que 0,001).
- 65 gramas ou mais: risco 35% maior.
Na síntese dos autores, o risco fica significativamente maior em mulheres a partir de 25 gramas por dia e em homens a partir de 45.
Para ter a régua: uma lata de cerveja de 350 ml a 5%, uma taça de vinho de 150 ml a 12% ou uma dose de 45 ml de destilado a 40% têm cerca de 14 gramas de álcool cada. Uma garrafa de cerveja de 600 ml tem cerca de 24.
O relatório que diz o contrário
Em dezembro de 2024, as Academias Nacionais de Ciências, Engenharia e Medicina dos Estados Unidos divulgaram um relatório, encomendado pelo Congresso, para orientar as diretrizes alimentares do país. Com consumo moderado definido como duas doses por dia para homens e uma para mulheres, o comitê concluiu, com certeza moderada, que beber moderadamente está associado a menor mortalidade por qualquer causa do que nunca beber.
O comitê também excluiu estudos com o viés do abstêmio e deixou de fora publicações anteriores a 2010. Nenhuma conclusão do relatório chegou a certeza alta.
Uma crítica publicada em 2025 no Journal of Studies on Alcohol and Drugs, assinada por Stockwell (um dos autores da revisão de 107 estudos) e colegas, aponta que a análise de mortalidade por qualquer causa do comitê usou 8 estudos. Não é que as Academias só encontraram 8: elas aplicaram critérios de inclusão mais estreitos.
Não é um lado mentindo: são dois grupos que filtraram de jeitos diferentes o mesmo tipo de evidência. Na minha visão, a conclusão prática sobrevive às duas leituras: um benefício tão incerto não é motivo para beber. E o relatório não comparou tipos de bebida: nenhuma vantagem do vinho foi demonstrada ali.
Onde os dois lados concordam: câncer
Até o relatório que viu menos mortes no consumo moderado concluiu, com certeza moderada, que esse mesmo consumo está associado a maior risco de câncer de mama.
Em janeiro de 2025, o Surgeon General, principal autoridade de saúde pública do governo americano, publicou um aviso oficial que coloca o álcool como a terceira causa evitável de câncer nos Estados Unidos, atrás do tabaco e da obesidade, ligado a perto de 100.000 casos e cerca de 20.000 mortes por ano. O aviso lista sete tipos com ligação causal: mama (em mulheres), colorretal, esôfago, fígado, boca, garganta e laringe.
No câncer de mama, segundo o aviso, o risco pode começar a subir em torno de uma dose por dia, ou menos. Em números absolutos, o risco até os 80 anos vai de cerca de 11%, nas mulheres que bebem menos de uma dose por semana, para cerca de 15%, nas que bebem duas doses por dia.
A conta que chega na mesma noite
Um estudo finlandês de observação, publicado em 2018 no JMIR Mental Health por Pietilä e colegas, analisou 4.098 trabalhadores medidos no dia a dia, comparando cada pessoa nas noites com e sem álcool. Nas três primeiras horas de sono, o índice de recuperação estimado pela variabilidade da frequência cardíaca caiu em média 9,3 pontos percentuais com ingestão baixa, 24,0 com moderada e 39,2 com alta. A queda foi maior nos mais jovens.
Duas ressalvas. A ingestão foi definida em gramas por quilo de peso, não em número de doses. E dois dos autores trabalhavam na Firstbeat, a empresa dona da base de dados e do cálculo de recuperação.
Num ensaio pequeno publicado na PLoS ONE em 2014, de Parr e colegas, 8 homens fisicamente ativos treinaram e depois tomaram 1,5 grama de álcool por quilo de peso, o equivalente a cerca de 12 doses. Comparado a tomar só proteína, álcool com proteína reduziu a síntese de proteína nas fibras musculares depois do treino em 24%, e álcool com carboidrato, sem proteína, em 37%. É o dado mais frágil deste texto: oito pessoas e uma noite inteira de bebida. Ele não diz o que duas cervejas fazem.
Na prática
- Conte 14 dias em gramas, não em taças. Anote todo dia, inclusive os zerados. A conta: mililitros vezes o teor alcoólico, dividido por 100, vezes 0,8. No fim, tire a média diária e anote a sua maior noite.
- Meça a taça que você serve em casa. Encha com água e meça num copo medidor: os 14 gramas valem para 150 ml a 12%.
- Se a média passou de 24 gramas, desça uma faixa na quinzena seguinte. Uma faixa, não precisa ser zero.
- Marque dois dias sem álcool por semana, sempre os mesmos. Regra fixa não exige decisão a cada noite.
- Evite beber na noite depois do treino mais pesado. A evidência é fina, mas o custo da regra é baixo.
- Se usa relógio ou pulseira, compare duas noites parecidas, com e sem bebida, e olhe a recuperação na manhã seguinte.
Quando deixa de ser hábito
Se algum destes sinais aparece, não é questão de disciplina: procure avaliação médica.
- Você começa e não consegue parar na quantidade que tinha planejado.
- Você bebe de manhã, ou bebe para segurar tremor, suor ou ansiedade.
- Você precisa de mais hoje para sentir o que sentia com menos antes.
- Já apareceu prejuízo no trabalho, na direção ou numa relação por causa da bebida.
- Você já tentou reduzir sozinho mais de uma vez e não conseguiu.
Se você usa medicação de uso contínuo ou tem doença no fígado, fale com quem te acompanha antes de tratar a bebida como detalhe.
Nenhuma dose tem benefício demonstrado sem disputa. O que existe é dose que custa pouco, e só dá para saber qual é a sua depois de contar.
Fontes
- Zhao J, Stockwell T, Naimi T, Churchill S, Clay J, Sherk A. Association Between Daily Alcohol Intake and Risk of All-Cause Mortality: A Systematic Review and Meta-analyses. JAMA Network Open, 2023;6(3):e236185. Errata: JAMA Netw Open. 2023;6(5):e2315283.
- National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. Review of Evidence on Alcohol and Health. The National Academies Press, 2025 (anúncio oficial de dezembro de 2024).
- Stockwell T, Priore I, Im PK. The U.S. National Academies of Science, Engineering, and Medicine Were Economical With the Truth About Alcohol and Health. Journal of Studies on Alcohol and Drugs, 2025;86(4):651-656.
- Office of the U.S. Surgeon General. Alcohol and Cancer Risk: The U.S. Surgeon General's Advisory. U.S. Department of Health and Human Services, janeiro de 2025.
- Pietilä J, Helander E, Korhonen I, Myllymäki T, Kujala UM, Lindholm H. Acute Effect of Alcohol Intake on Cardiovascular Autonomic Regulation During the First Hours of Sleep in a Large Real-World Sample of Finnish Employees: Observational Study. JMIR Mental Health, 2018;5(1):e23.
- Parr EB, Camera DM, Areta JL, et al. Alcohol Ingestion Impairs Maximal Post-Exercise Rates of Myofibrillar Protein Synthesis following a Single Bout of Concurrent Training. PLoS ONE, 2014;9(2):e88384.
Este texto é orientação de hábito, feita a partir de estudos publicados. Ele não substitui avaliação médica, e não serve para diagnosticar nem para mudar tratamento ou medicação. Se algo aqui conversa com um sintoma seu, leve a pergunta a quem te acompanha.
